Rowan Eleanor Blanchard (Los Angeles, 14 de Outubro de 2001) é uma atriz e cantora americana. Seus pais são Mark e Elizabeth Blanchard-Boulbol, dois professores de ioga. Iniciou sua carreira os 5 anos, atuando em comerciais. Em 2010, ela participou do filme The Back-up e fez parte do elenco de Dance-A-Lot Robot da Disney Junior interpretando Caitlin. Em 2011 foi escolhida para desempenhar o papel de Rebecca Wilson em Spy Kids: All the Time in the World. No final de janeiro de 2013, Blanchard foi escolhida para interpretar Riley Matthews na série original do Disney Channel Girl Meets World.



Entrevista para a Interview Magazine

A Interview Magazine do mês de Abril tem como tema o ativismo social, dando um foco especial no ativismo entre os jovens e selecionando alguns que estão se destacando hoje em dia, entre eles Amandla Stenberg, Hari Nef e, claro, Rowan. Confira abaixo a entrevista que a atriz concedeu a revista:

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Na sua série extremamente popular Girl Meets World e nos seus perfis sociais altamente visitados, Rowan Blanchard tem mais que abraçado a responsabilidade de seu perfil. Com apenas 14 anos, Blanchard fala, tweeta e escreve com calma, confiança e urgência – sobre qualquer coisa desde interseccionalidade e as políticas do feminismo, às girl gangs elitistas das redes sociais e o que faz uma escrita muito boa a comover. Mundo, é hora de conhecermos uma das vozes mais fascinantes da sua geração.

INTERVIEW: Você grava o dia inteiro?

ROWAN BLANCHARD: Hoje foi um dia de ensaio. Nós começamos a terceira temporada há algumas semanas, então, é, é isso que eu estou fazendo agora. É divertido.

INTERVIEW: É incrível para mim você estar fazendo isso desde tão nova. Performar tem te ajudado a se encontrar? Você pôde experimentar características do mesmo jeito que você experimenta roupas no camarim?

BLANCHARD: Eu acho que sim e não. Definitivamente há coisas sobre atuar que me ajudaram a crescer e me achar, mas também há coisas que fazem isso ser um pouco mais difícil. Eu diria que eu realmente me permito explorar mais quando eu sei que, no final das contas, se eu quisesse, eu poderia ser uma pessoa diferente o dia inteiro e ficar O.K. com isso. Mas também há momentos em que eu penso “Ahhh, tem pessoas demais na minha cabeça.” No meu trabalho, eu adoro tentar coisas novas e não me importar se derem errado. Agora estou tentando trazer isso para minha própria vida.

INTERVIEW: Ter a sua idade e ter tanta experiência no seu campo deve lhe dar ótima confiança, na sua vida e no seu trabalho.

BLANCHARD: Isso só entrou na minha vida recentemente. Eu acho que é porque, conforme entro mais na adolescência, mais emoções estão por todos os cantos… Eu me sinto horrível, eu me sinto ótima. Então é agradável ter este tipo de conforto onde, por exemplo, nós fizemos uma pausa recentemente e eu decidi não fazer nada, porque estava exausta e só queria ficar sozinha. E eu percebi no fim disso que, é ótimo e eu genuinamente gosto de ficar sozinha, mas ao mesmo tempo, é um alívio saber que eu tenho a mente de outra pessoa cuja mente eu possa visitar e cuja vida eu possa viver. É como uma rota de fuga, quase terapia. É revigorante saber que eu posso voltar a um lugar onde eu não tenho que ser mim mesma. Quando se é adolescente, e especialmente quando se é um ator mirim, a primeira coisa que você ouve é, “Você não quer errar; você não quer sair bêbado de uma boate”, e coisas assim. Quando eu era mais nova, um monte de adultos me diziam, “Você não pode fazer isso; você não pode fazer aquilo. Seja cuidadosa.” Eu estava sempre recebendo esse tipo de informação e me apeguei a ele. E eu coloquei muita pressão sobre mim mesma quando era mais nova, pensava coisas do tipo, “Você tem que ser perfeita; você não pode fazer nada.” Você basicamente não pode mostrar emoção e falar o que você quer. E aí eu percebi que eu tenho que viver minha vida por mim. Mas, mais e mais, se eu errar com alguma coisa, paro e penso, “Tudo bem, foi uma boa tentativa e pelo menos você tentou.” Muito disso veio através da escrita, onde eu fui capaz de achar modos de me identificar com as pessoas, e através de ler livros e assistir filmes e televisão, onde os personagens estavam errando e eu senti que podia errar, também.

INTERVIEW: Saber o que é certo para nós e filtrar o que nos é dito é tão difícil. Especialmente se nos sentimos diferentes de alguma forma. Por ter começado a trabalhar tão cedo, já se sentiu afastada?

BLANCHARD: Eu comecei a atuar com 5 anos e  isso sempre foi parte da minha vida. Minha vida e atuar não eram coisas separadas; sempre foram uma. Mas quando a série estreou eu tinha muito medo de alguém me ver brigando com os meus amigos ou algo do tipo, estava vivendo com medo das pessoas, com medo de dizerem algo ruim sobre mim. Porque quando várias pessoas te fazem duvidar de si mesmo a cada cinco segundos, você começa a questionar de verdade sua gravidade e o quanto você importa. E eu acho que comecei a perceber que atuar é uma ferramenta na minha vida. Eu poderia usá-la para me ajudar a seguir em frente. Foi difícil, porque na época, eu me lembro de ir à escola todo dia e me sentir mal sobre mim mesma, porque sempre senti como se as outras crianças me odiassem, mas fingiam serem meus amigos. E é muito assustador, quando se está prestes a se tornar um adolescente, não saber se as pessoas gostam de você por quem você é ou se elas gostam de você por causa da série em que você está. Então eu comecei a achar amigos que não eram assim, que te aceitam e te veem pelo que você é.

INTERVIEW: Onde você pôde achar novos amigos?

BLANCHARD: Começou quando eu achei outros hobbies que eu gostava muito, porque lembro que sempre tinha medo de outras atrizes da minha idade. Não por elas serem minha competição, mas porque eu pensava que elas pensavam que eu era competição delas. Quando eu abaixei a guarda, eu comecei a andar com outras atrizes. Nós nem sempre falamos sobre atuar, mas é uma parte de nossas vidas, e uma vez que eu descobri coisas que gosto além de atuar, como escrever e arte e coisas do gênero, foi quando eu fui capaz de achar outras pessoas e falar, “Ei, você quer sair?” E conversar sobre coisas que temos em comum.

INTERVIEW: Algo que você falou sobre antes é se comparar com os outros – é realmente uma espada de dois gumes, não é? Ter heróis que você admira, mas contra quais você sempre vai sofrer em comparação.

BLANCHARD: É definitivamente uma coisa difícil, porque você quer idolatrar essas pessoas e tê-las no seu bolso de trás, para sempre se sentir como se eles estivessem com você, seus ídolos, seus ícones, as pessoas que você ama. Mas você não quer ter que constantemente avaliar-se para ser como eles. Eu acho que fiz muito isso quando comecei a escrever publicamente. Toda vez que eu lia algo que outra pessoa escreveu – não importava se ela fosse 30 anos mais velha que eu e tivesse escrito 15 livros – eu pensava, “Por que eu não estou escrevendo como ela?” Tavi escreveu um ensaio para a Rookie e ela cita uma frase do Bill Murray. Perguntaram ao Bill Murray, “Como é ser você?” E Bill Murray respondeu da melhor forma possível. Ele diz algo como, ”Alguns de vocês estão sentados, alguns de vocês estão em pé. Mas se você parar um instante e ir dentro do seu corpo, pode sentir seu peso contra a Terra, e pode reconhecer que você é a única pessoa que está sentindo seu próprio peso contra a Terra neste momento.” E isso em si já é um superpoder, ser capaz de perceber isso. Eu tenho essa citação pendurada na minha parede. Eu a leio quando estou tendo uma crise de identidade e estou meio que, “Eu não sei o que está acontecendo!” Eu leio isso e ajuda, sentir sua própria existência, sentir si mesmo momento a momento.

INTERVIEW: Bill Murray é o Buda. Mas você se tornou uma voz tocante e confortante para muitas pessoas. Houve algum evento que te fez falar sobre interseccionalidade e feminismo no seu Tumblr e Twitter?

BLANCHARD: Eu sempre reconheci – pessoalmente, não publicamente – as coisas que estavam acontecendo, coisas que estavam acontecendo no mundo. Mas eu ainda não tinha feito a conexão de que essas coisas acontecem comigo. Lembro que estava em um cinema com minha amiga e nós duas estávamos de saia – isso foi há dois anos e meio – nós estávamos no lado de fora do cinema, esperando o meu pai nos buscar, e um homem feito veio e perguntou, “Vocês querem uma carona?” E eu me lembro de sentar lá, sentindo o meu coração afundar. Foi um momento tão surreal. Porque eu sempre vejo acontecendo na minha frente; eu sempre vejo garotas recebendo cantadas na rua. Mas até aquele momento, eu não tinha experienciado isso. Foi como se eu estivesse fora do meu corpo por um segundo. Eu já tinha visto isso em filmes, na TV, nas noticias. Mas quando acontece com você, você pensa “Droga, isso é real; as pessoas olham para mim desse jeito. E as pessoas olham para outras meninas desse jeito.” Eu fui para casa naquela noite e não comentei com ninguém. Eu não contei para os meus pais porque estava com vergonha que aquilo era o que eu estava vestindo. Eu pensei, “Nossa, eu não deveria usar uma saia na próxima vez. O que eu estou fazendo?” Minha irmã tinha 10 anos na época e eu me lembro de deitar na cama e pensar, “Eu não quero que isso aconteça com ela nunca.” Depois, uma vez que acontece com você, você vê aquilo em toda parte. Quando você está assistindo sua série favorita, você vê uma piada que talvez tivesse passado por sua cabeça há um mês. Você não pode escapar. Não há nada que você possa fazer exceto aguentar e tentar falar sobre isso. Então foi o que eu tentei fazer. Porque aquilo começou a me consumir. E, quando meninas viam até mim e falavam, “Eu assisto sua série”, eu pensava, “Será que isso já aconteceu com essa menina? Claro que isso já aconteceu com essa menina, porque acontece todos os dias.” Isso começou a me assustar. Então eu comecei a colocar coisas no Twitter, Tumblr e Instagram, porque eu sei que tenho pessoas que me seguem, e a maioria das pessoas que assistem a nossa série, eu diria, é de meninas. E eu não queria que elas passassem por aquilo. Eu só comecei a fazer isso porque eu já não aguentava mais.

INTERVIEW: Quando você começou a se engajar no tópico, você o fez muito eloquentemente. Você tinha algum tipo de missão de articular o assunto para as pessoas de um jeito que elas sentissem uma conexão com o que você estava falando – ao invés do tipo de barulho que você recebia quando estava assistindo coisas daquele tipo nos jornais?

BLANCHARD: Sim. Eu sei que as coisas que mais me impactaram não são artigos de notícia escritos por pessoas mais velhas com as quais eu não tenho nenhuma relação; as coisas que mais me impactam são coisas escritas por pessoas mais próximas da minha idade. Pessoas como a Tavi. E eu queria escrever de uma maneira que alguém da minha idade possa ler e sentir que está segurando a mão de alguém e está com alguém.

INTERVIEW: Você não parece nem um pouco afetada pelo seu grande número de seguidores, enquanto outros podem começar a parecerem produtos, e tentam se vender.  Você parece ser você mesma online, engajada e pessoal. Como você conseguiu fazer isso?

BLANCHARD: Eu acho que é porque quando eu estou escrevendo, eu estou no meu quarto e não parece que tenha outra pessoa lá. Então eu não estou totalmente ciente das outras pessoas que potencialmente vão ler aquilo. Sempre que eu leio um livro… Eu acabei de terminar O Apanhador no Campo de Centeio, e aquele livro teve um impacto tão profundo sobre mim, porque parecia que era só o Holden e eu. Eu me senti como se nenhuma outra pessoa tivesse lido aquele livro. Parecia o meu segredo. Escrita com que me identifico me faz sentir como se fosse só eu e o autor. Então eu espero que quem quer que esteja lendo o que eu escrevo se sinta assim.

INTERVIEW: Você pôde conectar-se com pessoas maravilhosas – Cecile Richards e Tavi para começo de conversa. Mas você também tem a preocupação de não criar um ar de “meninas-malvadas-você-não-pode-sentar-com-a-gente” sobre isso. Você não quer criar nenhum tipo exclusividade com as suas amizades.

BLANCHARD: Parte do motivo é porque eu não podia sentar com as garotas legais. Eu não estou brincando. No ensino fundamental, tinha literalmente um lugar para as crianças descoladas. Você só podia sentar lá se fosse legal, e eu não era. Então eu lia A Invenção de Hugo Cabret embaixo dos escorregadores. Todos os meus amigos eram personagens literários. Por isso é muito importante para mim que uma garota não veja um grupo de meninas no Instagram e se sinta intimidada. Nenhuma garota deveria sentir medo de ser amiga de outras garotas. Eu sentia. Eu vivia com medo de meninas. Eu me lembro de ter dito, no sétimo ou oitavo ano, “Eu só ando com meninos, porque meninas são muito assustadoras e malvadas.” Por causa de toda esta imagem de perfeição em grupinhos de amigas, eu tinha muito medo de que as outras garotas me odiassem, de que eu não fosse bonita o bastante ou legal ou bastante ou eu não tivesse seguidores o bastante no Instagram, que seja. Mas achar amizade feminina foi um ponto tão monumental na minha vida. E eu não quero que alguém sinta que tenha que reavaliar si mesmo para se juntar aos meus amigos ou se juntar a qualquer grupo de amigos.

INTERVIEW: Que tipos de pressão você coloca em si mesma agora? Qual é o seu relacionamento com a ambição?

BLANCHARD: Eu acho que essa é definitivamente uma coisa interessante de se falar sobre. Porque eu passei por uma fase em que eu tinha medo de colocar pressão sob mim mesma. Eu não sou religiosa no sentido de ir à igreja ou coisa assim, mas quando eu era mais nova, eu gostava bastante de astrologia, a lua e os planetas. Então eu basicamente formei meu próprio sistema de crenças em torno de um negócio de momento-a-momento. E é difícil colocar ambições em uma existência de momento-a-monento, porque você não quer se importar muito com o futuro. Então eu comecei a seguir coisas que eu amo de verdade, coisas que eu não posso viver sem, como atuar e escrever. Eu não posso ser verdadeiramente mim mesma sem essas coisas. Então agora, em vez de me comparar a alguém ou pensar “eu tenho que fazer isso, isso e isso”, eu apenas assisto vários filmes e penso, “Eu adoraria escrever essa história”, ou “Eu adoraria dirigir isso”. E eu vou dirigir aquilo, e eu vou escrever aquilo, e eu vou atuar naquilo. É assim que eu sou agora. E eu não me dou prazos; eu penso que nós podemos nos perder no conceito de tempo: “Se eu não fizer isso por esta altura, eu sou essa pessoa?” Voltando à frase do Bill Murray, “Sim, você é, porque você é você mesmo.” Não é mais tão assustador quanto costumava ser. Parcialmente tenho porque eu tenho várias pessoas diferentes que admiro e que me ensinaram muitas coisas em diferentes em diversos pontos da minha vida, não é como se eu tivesse uma pessoa que eu devo copiar. Na mesma parede onde eu tenho a citação do Bill Murray, eu tenho uma lista de inspirações de vida, e vai de Beyoncé até David Bowie até Madame X, que é uma pintura de John Singer Sargent. Tem muita coisa que eu quero fazer. As pessoas costumavam sempre me diminuir, tipo, “Ah, você é tão nova”, mas agora eu reconheço que a minha idade é uma vantagem; eu ainda posso fazer muito mais. ●

Fonte: Interview Magazine

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